A recente operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, escancarou a face mais sofisticada e perigosa do Primeiro Comando da Capital (PCC): a transformação de uma facção de narcotráfico em um verdadeiro conglomerado empresarial criminoso com atuação global.
Segundo o consultor e pesquisador Roberto Uchôa, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o processo não é repentino.
“É uma metamorfose lenta e estratégica. O PCC deixou de ser apenas uma facção de tráfico para se tornar uma empresa criminosa com braços no mundo todo”, afirma.
Nascido nos presídios paulistas para proteger detentos contra abusos e torturas, o PCC rapidamente expandiu sua influência além das grades. Primeiro, consolidou o domínio no tráfico interno de drogas; depois, conquistou espaço no comércio internacional de cocaína.
Hoje, segundo o Ministério Público de São Paulo, a facção já está presente em 28 países, principalmente na Europa e na África Ocidental.
“O PCC controla a cadeia completa do tráfico, da produção ao transporte internacional. Mas agora o foco vai além da droga: é o mercado legal que se tornou alvo de infiltração”, alerta Uchôa.
A operação revelou que o dinheiro do PCC já circula intensamente em atividades como:
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Contrabando de cigarros
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Adulteração de combustíveis
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Garimpo ilegal
E a preocupação maior: esse modelo começa a ser replicado na Europa, especialmente em Portugal.
“Já há relatos de compra de imóveis, estabelecimentos comerciais e até especulações sobre investimento em clubes de futebol”, afirma Uchôa.
Portugal é o país europeu mais exposto à presença do PCC, não apenas por causa da comunidade brasileira numerosa, mas também por sua posição estratégica como rota de entrada da cocaína.
Casos recentes revelam o nível de sofisticação:
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Prisão em Lisboa de um operador do PCC que utilizava motos subaquáticas para recuperar drogas presas em navios antes de atracar.
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Esquemas de corrupção em consulados, com funcionários facilitando documentos de nacionalidade falsos para membros da facção.
Essas operações levaram Portugal a intensificar a cooperação com a Polícia Federal brasileira, com acordos de troca de informações e investigações conjuntas.
Apesar da integração crescente, Uchôa aponta um obstáculo: a relutância política em reconhecer o PCC como ameaça internacional.
Recentemente, autoridades brasileiras minimizaram o risco em visita a Portugal, o que foi criticado por especialistas como o promotor Lincoln Gakiya, referência no combate à facção:
“Já é um problema. Precisamos assumir isso para que o trabalho seja feito”, disse Gakiya, que vive sob escolta após ameaças de morte.
O recado de Uchôa é direto: não enxergar o PCC apenas como organização de narcotráfico é fundamental. O grupo já é capaz de distorcer mercados legais, comprar empresas e gerar lucros dentro da própria economia formal.
Se o Brasil e a Europa não agirem com firmeza, o modelo criminoso que corrompeu instituições e distorceu mercados no Brasil pode ser exportado para o resto do mundo.
Redação
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