Uma operação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de Goiás (MPGO), identificou que o delegado Dannilo Proto, atualmente preso na Casa do Albergado, em Goiânia, mantinha uma rotina considerada irregular enquanto esteve custodiado na Delegacia Estadual de Investigações de Homicídios (DIH). Durante esse período, segundo o MP, ele chegou a fazer pedidos frequentes de pizza, refrigerante e sobremesa, como se estivesse em casa. A ação ocorreu na segunda-feira, e o Integração News teve acesso a um documento do Ministério Público datado do último dia 12.
De acordo com o MPGO, conversas extraídas do celular apreendido durante a operação mostram que o delegado utilizava o nome “Darcy Vieira” e, em algumas mensagens, perguntava até mesmo o “código” para finalizar entregas de comida na unidade policial. Dannilo Proto e a esposa, Karen Proto, presa na terça-feira (27), em Rio Verde, são suspeitos de integrar um esquema de fraudes em contratos na área da educação, com desvio de recursos públicos no Estado.
“As mensagens extraídas comprovam que a família transformou a unidade policial em uma extensão de sua residência, ignorando normas de segurança carcerária para garantir conforto e comunicação ao investigado”, afirma trecho do documento do MP. Entre os registros anexados, há mensagens solicitando pizza de frango, refrigerante e sobremesa, com pedidos direcionados à DIH e realizados quase diariamente entre os meses de setembro e outubro.
Proto foi transferido para a Casa do Albergado no dia 18 de dezembro, após os promotores identificarem que ele continuava comandando atividades empresariais de dentro da prisão, por meio de um aparelho celular.
Posição da defesa
Ao Integração News, o advogado de Dannilo Proto, Gilles Gomes, afirmou que os fatos divulgados pelo Ministério Público não configuram crime. “Sob o aspecto criminal, não é crime”, declarou. Segundo ele, no campo moral, a conduta pode ser questionável, mas eventual responsabilização administrativa cabe à Corregedoria da Polícia Civil. “Quem deve avaliar isso é a própria Corregedoria”, completou.
Uso de celulares e notebooks
O MPGO também apura se houve omissão ou facilitação por parte de agentes da Polícia Civil na entrada de celulares e notebooks na cela onde o delegado estava custodiado na DIH. A investigação avançou após uma inspeção da Corregedoria não apontar irregularidades. Em nova vistoria realizada pelo Ministério Público, foram encontrados um celular e anotações em diários nos quais o preso detalhava sua rotina e a gestão do Instituto Delta Proto (IDP), sediado em Rio Verde.
Segundo o MP, Dannilo teria se referido à cela como um “escritório de fácil camuflagem”. Em mensagens enviadas à família por WhatsApp, ele relatou que a inspeção policial teria sido solicitada por ele próprio e descreveu manobras para esconder equipamentos eletrônicos durante a vistoria. O conteúdo foi revelado pela TV Anhanguera.
A coordenadora do Gaeco, promotora Gabriela Clementino, afirmou que a custódia se transformou em um “escritório delitivo” para a continuidade dos crimes. “É intolerável que um agente público use o conhecimento conferido pelo Estado para a prática de atividades ilícitas”, declarou. Já o coordenador do Centro Integrado de Investigação e Inteligência do Gaeco, Carlos Wolff de Pina, afirmou que há indícios de que a inspeção tenha ocorrido a pedido do próprio delegado.
Histórico de denúncias
Em novembro do ano passado, o Integração News já havia noticiado que Dannilo Proto, mesmo preso, estaria coagindo ex-alunos do Instituto Delta Proto, em Rio Verde, por meio de mensagens enviadas de dentro da cela. Em áudios divulgados à época, o delegado teria intimidado estudantes inadimplentes, reforçando cobranças contratuais.
As defesas de Dannilo e Karen afirmaram à imprensa que testemunhas não confirmaram as acusações apresentadas pelo Ministério Público. A Polícia Civil de Goiás também foi procurada pelo Integração News e enviou nota oficial esclarecendo os procedimentos adotados.
Prisão e investigações
Dannilo Proto foi preso em agosto de 2025, em operação do MPGO, suspeito de liderar um esquema que teria desviado mais de R$ 2,2 milhões de escolas estaduais em Rio Verde, por meio de licitações fraudulentas. Segundo as investigações, ele e a esposa seriam sócios do Instituto Delta Proto, empresa que teria sido beneficiada em contratos de reformas, impressão de material didático e até na realização de concurso público da Câmara Municipal. Desde 2020, ao menos 40 contratos sem licitação teriam sido direcionados à empresa. A investigação teve início em 2023.
O delegado já havia sido afastado do cargo em 2015, após investigação por suspeita de corrupção, quando teria cobrado dinheiro de um fazendeiro em troca da recuperação de gado roubado. Na ocasião, ele alegou que parte do valor teria sido usada para melhorias na unidade policial.
Nota da Polícia Civil
Em nota, a Polícia Civil de Goiás informou que instaurou procedimentos internos sempre que surgiram indícios de irregularidades relacionadas à custódia de presos em unidades policiais. A corporação destacou que inquéritos foram abertos, responsáveis identificados e os casos encaminhados ao Judiciário, reafirmando o compromisso com a legalidade, a transparência e a apuração rigorosa de qualquer conduta ilícita.
Redação: Integração News
Jornalista: João Pedro Lira
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