Um dos bairros mais tradicionais e valorizados de Goiania guarda uma história pouco conhecida e cercada de curiosidades. O traçado urbano do Setor Jaó — incluindo avenidas e ruas — teria sido projetado e executado com a participação de prisioneiros de guerra da Alemanha nazista no período pós-Segunda Guerra Mundial.
De acordo com pesquisas acadêmicas, cerca de 50 oficiais da Wehrmacht desembarcaram na capital goiana em 1947, após a derrota de Adolf Hitler na Segunda Guerra Mundial. Considerados intelectuais e com formação técnica, eles teriam sido direcionados ao estado para colaborar em projetos urbanos.
O doutorando em História pela Universidade Federal de Goias (UFG), Cristian de Paula, explica que o setor apresenta características urbanísticas inovadoras para a época em Goiás. A análise tem como base pesquisa desenvolvida pelo advogado e pesquisador Arthur Rios.
Segundo os estudos, os alemães vieram do Reino Unido para Goiás durante a gestão do então governador Jerônimo Coimbra Bueno. A articulação teria ocorrido após reunião do chefe do Executivo estadual com o embaixador britânico, no Rio de Janeiro — então capital federal.
O acordo foi firmado em 1947. Um avião, possivelmente da Força Aérea Real britânica, teria trazido o grupo até Goiânia. Inicialmente, os prisioneiros foram alojados em uma penitenciária local. Posteriormente, foram transferidos para uma fazenda na região onde hoje está o Setor Jaó, onde permaneceram acampados durante a elaboração do projeto urbano.
A transferência dos europeus foi conduzida sob sigilo, diante do potencial desgaste político que o acolhimento poderia gerar. Para evitar repercussão pública, eles foram levados à Fazenda Retiro, propriedade da empresa Interestadual Mercantil S/A.
A área pertencia a José Magalhães Pinto, banqueiro e político mineiro ligado à antiga UDN e principal acionista do Banco Nacional. Coimbra Bueno, que tinha formação em urbanismo, idealizou a transformação da fazenda, situada às margens do Rio Meia Ponte, no que viria a ser o Setor Jaó.
Magalhães Pinto aprovou a proposta e teria concedido autonomia ao governo goiano para conduzir o projeto. Como contrapartida, solicitou que duas avenidas recebessem os nomes Pampulha e Belo Horizonte, em homenagem à capital mineira.
O nome “Jaó” teria sido escolhido pelos próprios alemães, em referência a um pássaro comum na região. Com exceção das avenidas Belo Horizonte e Pampulha, as demais vias passaram a iniciar com a letra “J”, característica atribuída a um modelo de organização urbana associado à tradição alemã de padronização.
Os prisioneiros teriam atuado no projeto entre 1947 e 1952. Após a conclusão dos trabalhos, foram libertados. Segundo relatos históricos, embora fossem integrantes do Exército Alemão no período final da guerra — quando a estrutura militar estava amplamente alinhada ao regime nazista — isso não significa que todos fossem necessariamente membros do partido.
Parte do grupo teria deixado Goiás após o término das atividades. No entanto, três nomes são citados como possíveis moradores permanentes da capital: Werner Sonnenberg, Otto Hoffmann e Paul Boetcher.
A presença de alemães na América Latina após a guerra não foi um caso isolado. Diversos ex-integrantes e simpatizantes do regime nazista migraram para países como Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Brasil no pós-guerra.
Tentativas de localizar registros oficiais sobre o eventual falecimento dos citados em Goiânia não tiveram êxito, segundo informações obtidas junto a órgãos responsáveis por registros históricos.
Pesquisadores ressaltam que o episódio ainda carece de aprofundamento documental, mas reforçam que a participação dos prisioneiros no planejamento do Setor Jaó é um capítulo relevante — e pouco explorado — da história urbana da capital goiana.
Redação: Integração News
Jornalista: João Pedro Lira
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