A localização estratégica de Goiás no mapa logístico do país tem colocado o estado também na rota do contrabando de cigarros eletrônicos. Apenas entre janeiro e fevereiro deste ano, a Receita Federal retirou de circulação um vape a cada três horas durante operações de fiscalização em território goiano.
De acordo com levantamento obtido pelo Integração News, 440 dispositivos foram apreendidos nesse período, somando cerca de R$ 18,3 mil em mercadorias ilegais.
Os números reforçam um cenário preocupante. Em 2024, foram apreendidos em Goiás aproximadamente 36,2 mil itens relacionados a cigarros eletrônicos, entre aparelhos, essências e peças. Isso representa uma média de 99 apreensões por dia. O valor total das mercadorias retiradas do mercado ilegal ultrapassou R$ 2,3 milhões.
Com esse volume, Goiás passou a ocupar a sexta posição no ranking nacional de estados com maior número de apreensões de vapes. O estado fica atrás apenas do Paraná, Distrito Federal, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina.
Apesar da popularidade crescente, especialmente entre jovens, a venda de cigarros eletrônicos é proibida no Brasil desde 2009. Segundo a Receita Federal, organizações criminosas utilizam rotas já consolidadas pelo tráfico de drogas para transportar esses produtos ilegalmente pelo país.
De acordo com o auditor-fiscal e chefe da Seção de Repressão ao Contrabando e Descaminho (Sarep), Guilherme Renovato, Goiás funciona como um importante corredor logístico para o contrabando.
“O estado é uma rota de passagem entre o Paraguai e as regiões Norte e Nordeste do Brasil, além de possuir um mercado consumidor próprio. A atuação constante da Receita Federal e de outros órgãos de fiscalização também contribui para o elevado número de apreensões”, explicou.
As principais rotas utilizadas pelos contrabandistas incluem as rodovias federais BR-364, BR-153 e BR-060. Entretanto, o transporte também ocorre por meio de ônibus, caminhões e veículos menores em rodovias estaduais.
Além das fronteiras terrestres, cigarros eletrônicos também chegam ao Brasil por via marítima, principalmente por portos no Nordeste e pelo Porto de Santos, em São Paulo.
Segundo dados de 2024, o mercado ilegal de vapes já provoca um impacto fiscal estimado em R$ 7,7 bilhões em todo o país. Apesar do crescimento acelerado, o prejuízo ainda é menor que o causado pelo contrabando de cigarros tradicionais, que ultrapassa R$ 10,5 bilhões.
Renovato destaca que o comércio ilegal desses produtos é altamente fragmentado.
“Não existe um único perfil. O mercado ilegal funciona de forma descentralizada e multicanal. A distribuição costuma ser feita por organizações criminosas estruturadas, mas a revenda ocorre por meio de uma ampla rede de intermediários, que inclui lojistas formais, vendedores informais e plataformas digitais”, afirmou.
O avanço do contrabando de vapes tem exigido maior integração entre as forças de segurança. Em Goiás, as principais operações de combate envolvem a Receita Federal, Polícia Rodoviária Federal (PRF), Polícia Militar (PM), Polícia Civil (PC) e Polícia Federal (PF).
Em uma ação recente, realizada no dia 20, a Polícia Federal apreendeu 200 cigarros eletrônicos introduzidos ilegalmente no país. Uma pessoa foi presa em flagrante pelo crime de contrabando, cuja pena pode variar de dois a cinco anos de prisão.
Segundo a Receita Federal, grande parte das apreensões ocorre durante abordagens em rodovias ou em cargas transportadas por empresas de logística.
“Muitos desses produtos são vendidos pela internet e enviados por transportadoras, o que explica o grande número de apreensões em centros de distribuição e cargas logísticas”, explicou Renovato.
Além da ilegalidade, especialistas alertam para os riscos à saúde associados ao uso dos cigarros eletrônicos. O dispositivo funciona por meio de uma bateria que aquece um líquido composto, em geral, por água, aromatizantes, nicotina, propilenoglicol e glicerina vegetal.
O pneumologista Matheus Rabahi explica que o aerossol produzido pelo aparelho é frequentemente confundido com “vapor de água”, mas contém diversas substâncias potencialmente tóxicas.
Entre os principais riscos apontados estão:
• Superdose de nicotina, que pode provocar taquicardia, náuseas, hipertensão, ansiedade e até convulsões.
• Toxicidade de flavorizantes e solventes, como o diacetil e o acetato de vitamina E, associados a doenças pulmonares graves.
• Uso contínuo ao longo do dia, que mantém o cérebro sob constante estímulo da nicotina.
• Falta de controle de qualidade, já que muitos produtos entram no país de forma irregular ou falsificada.
De acordo com o especialista, um vape de 2 ml com concentração de 50 mg/ml de nicotina pode conter cerca de 100 mg da substância — o equivalente a dois ou três maços de cigarro convencional, dependendo da absorção.
Isso significa que um adolescente que consome dois pods por semana pode estar inalando uma quantidade de nicotina equivalente a até seis maços de cigarro, mesmo sem nunca ter fumado um cigarro tradicional.
Rabahi também alerta que o cigarro eletrônico, inicialmente criado como alternativa para ajudar fumantes a abandonar o tabagismo, acabou atraindo novos usuários que nunca haviam tido contato com o cigarro comum.
Entre jovens e adolescentes, a popularização dos vapes é impulsionada por fatores como sabores adocicados, design moderno semelhante a pen drives e a falsa percepção de que o produto seria menos prejudicial à saúde.
O especialista ressalta que o uso pode estar associado a diversas doenças, como lesões pulmonares relacionadas ao vaping (EVALI), bronquiolite obliterante — conhecida como “doença do pulmão de pipoca” —, pneumonite química, agravamento de asma, além de problemas cardiovasculares, neurológicos e psiquiátricos.
Redação: Integração News
Jornalista: João Pedro Lira
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