As mortes ocorridas no Hospital Anchieta, em Taguatinga, no Distrito Federal, ganharam novos desdobramentos após a prisão de enfermeiros investigados por homicídio. Pelo menos seis famílias procuraram a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) para relatar óbitos considerados suspeitos na unidade de saúde, registrados após o caso vir a público.
Os profissionais presos são investigados pelas mortes de Marcos Raymundo Fernandes Moreira, de 33 anos, João Clemente Pereira, de 63, e Miranilde Pereira da Silva, de 75. As vítimas morreram enquanto estavam internadas na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Anchieta, entre os dias 17 de novembro e 1º de dezembro de 2025.
Em nota, o Hospital Anchieta informou que acompanha os desdobramentos das investigações e ressaltou que adotou postura transparente desde o início. Segundo a instituição, a própria direção identificou circunstâncias consideradas atípicas, realizou apuração interna em menos de 20 dias e denunciou o caso de forma proativa à Polícia Civil, entregando toda a documentação necessária.
O hospital também afirmou que colaborou integralmente com as autoridades, solicitando a abertura de inquérito policial e a adoção de medidas cautelares contra os envolvidos.
De acordo com a Polícia Civil, as investigações indicam que os pacientes teriam morrido após a aplicação irregular de medicamentos e até de desinfetante diretamente na veia. Segundo os investigadores, quando administrado fora dos protocolos médicos, o produto pode causar parada cardíaca em poucos segundos.
A corporação não descarta a possibilidade de mais mortes relacionadas aos suspeitos, tanto no Hospital Anchieta quanto em outras unidades de saúde onde eles possam ter atuado, nas redes pública e privada. Um novo inquérito deve ser instaurado para apurar esses casos.
O principal investigado é o técnico de enfermagem Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, de 24 anos. Também foram presas as técnicas de enfermagem Amanda Rodrigues de Sousa e Marcela Camilly Alves da Silva, suspeitas de participação e de acobertamento dos crimes.
Segundo o delegado Maurício Iacozzilli, da Coordenação de Repressão a Homicídios do DF, a principal linha de investigação aponta que o suspeito teria cometido os crimes por prazer, o que levanta a hipótese de psicopatia.
A Polícia Civil apura ainda se Marcos Vinícius teria manipulado as duas técnicas para auxiliá-lo. Uma delas estava em treinamento e no primeiro emprego; a outra era amiga do suspeito há vários anos. Imagens das câmeras de segurança mostram que ambas acompanharam a preparação e a aplicação dos medicamentos.
A Delegacia de Homicídios do Distrito Federal investiga ainda outras duas mortes suspeitas ocorridas no Hospital Anchieta entre agosto e setembro do ano passado. As vítimas são uma mulher de 80 anos e um homem de 89. Os familiares procuraram a polícia após reconhecerem Marcos Vinícius em reportagens sobre o caso.
A família da idosa de 80 anos já foi ouvida informalmente. De acordo com a advogada, a paciente deu entrada no hospital com quadro de tontura, sem histórico de problemas cardíacos, e morreu após sofrer uma parada cardiorrespiratória na UTI.
Familiares das vítimas relatam surpresa e indignação com as circunstâncias das mortes. Miranilde Pereira da Silva, de 75 anos, procurou atendimento médico por causa de constipação intestinal, segundo a filha, Kássia Leão.
— Nenhuma alteração no exame de sangue, nenhuma alteração na tomografia. Ela ia ser medicada e voltar para casa — afirmou Kássia, em entrevista à TV Globo.
Durante a internação, Miranilde apresentou piora súbita e morreu no dia 17 de janeiro. A Polícia Civil afirma que ela recebeu quatro aplicações irregulares de medicamentos, sofrendo sucessivas paradas cardíacas. Como não morreu inicialmente, o técnico teria aplicado mais de dez doses de um desinfetante retirado de um frasco da própria UTI.
Preso em janeiro, Marcos Vinícius negou os crimes em um primeiro momento, mas confessou após ser confrontado com imagens das câmeras de segurança.
As técnicas Amanda Rodrigues de Sousa e Marcela Camilly Alves da Silva são acusadas de dar cobertura ao principal suspeito durante os episódios investigados. Segundo a Polícia Civil, Marcos Vinícius atuava há cerca de cinco anos na área da saúde. Após a abertura da investigação interna, o Hospital Anchieta demitiu os três suspeitos.
Até o momento, as defesas dos investigados não foram localizadas pela reportagem.
Redação: Integração News
Jornalista: João Pedro Lira
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