Um campo de futebol simples, de chão batido e cercado por árvores, tornou-se o centro de uma disputa judicial em Pirenópolis (GO). No distrito de Capela do Rio do Peixe, moradores estão lutando na Justiça para garantir o direito de continuar utilizando o espaço que, há mais de seis décadas, é palco de torneios, festas e encontros comunitários.
O terreno, segundo registros, pertence à paróquia local. No entanto, os moradores afirmam que o campo foi construído e mantido pela comunidade, e que o uso coletivo é tão antigo que se tornou parte da identidade do distrito. Para preservar o espaço, a associação dos moradores entrou com um processo de usucapião, buscando o reconhecimento legal da posse comunitária do terreno.
A moradora Dona Terezinha Alves, de 74 anos, cresceu vendo os jogos e as festas que aconteciam no campo. “Esse campo é a alma da comunidade. Aqui a gente se reúne, se diverte, comemora. Ninguém quer tirar nada da Igreja, só queremos continuar cuidando do que sempre foi nosso”, desabafa.
A tensão aumentou quando o padre João Paulo, responsável pela paróquia, teria anunciado planos para construir um santuário religioso no mesmo local. A proposta dividiu opiniões. Enquanto parte da comunidade respeita a ideia, muitos consideram que o espaço deveria permanecer como patrimônio esportivo e cultural.
De acordo com relatos de moradores, parte da área já foi utilizada como estacionamento durante eventos religiosos — com cobrança de valores. Há também denúncias de que uma porção do cemitério da paróquia teria sido vendida, o que acirrou ainda mais o conflito.
“Depois que começaram a cobrar estacionamento, a gente viu que estavam querendo transformar tudo em negócio. Esse campo sempre foi da comunidade, nunca foi explorado por ninguém”, relatou um dos líderes comunitários, que preferiu não se identificar.
O caso já foi levado à Justiça, e uma audiência de instrução e julgamento foi realizada recentemente. A decisão deve ser publicada nos próximos dias. Enquanto isso, os moradores seguem mobilizados, realizando rifas e campanhas para custear os honorários advocatícios.
O grupo também pretende se reunir com o bispo da Diocese de Anápolis, na tentativa de sensibilizar a Igreja sobre o valor simbólico do campo. “Não é uma disputa contra a Igreja, é uma defesa pela história do povo. São mais de 60 anos de tradição, onde pais e filhos jogaram juntos. Isso tem valor imensurável”, reforçou um dos advogados do caso.
A luta dos moradores de Capela do Rio do Peixe vai além de um campo de futebol. Ela representa o conflito entre a memória coletiva e o avanço de interesses institucionais. Para muitos, o campo é mais do que terra: é um símbolo de união, fé e pertencimento.
Enquanto aguardam a decisão judicial, a comunidade segue cuidando do gramado e organizando pequenos torneios, como forma de resistência. “Enquanto não tirarem a gente daqui, o jogo continua”, disse um dos moradores, com um sorriso que mistura esperança e saudade.
Redação
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