O projeto de parcerias público-privadas (PPPs) para o saneamento em Goiás entrou em rota de crise às vésperas do leilão marcado para a próxima quarta-feira (25). A iniciativa, considerada uma das principais do setor em 2026, enfrenta críticas de empresas, questionamentos judiciais e baixa adesão do mercado.
Dos três blocos previstos no edital, apenas um recebeu proposta — e ainda assim de um único interessado. A ausência dos grandes operadores do país acendeu um alerta sobre a viabilidade do projeto conduzido pela Saneago, com estruturação do BNDES.
Nos bastidores, já se discute a possibilidade de cancelamento do leilão, inclusive do bloco que recebeu proposta, e a reformulação completa do modelo. O governo de Ronaldo Caiado ainda não confirmou oficialmente essa decisão.
Empresas do setor apontam falhas na modelagem econômica como principal motivo para o desinteresse. O investimento total previsto é de R$ 6,2 bilhões, com o objetivo de transferir à iniciativa privada a operação, manutenção e expansão dos serviços de esgoto em 216 municípios goianos.
O único grupo participante é o consórcio Águas do Cerrado, formado por Quebec Ambiental, São Bento Upside e Sistemma, que apresentou proposta apenas para o bloco 2 (região oeste), estimado em R$ 1,3 bilhão — o menor dos três.
Gigantes do setor como Acciona, Aegea, BRK e GS Inima chegaram a estudar o projeto, mas recuaram diante de inconsistências apontadas no edital.
Entre os principais problemas está o valor de capex (investimentos) considerado na modelagem, visto como abaixo da realidade de mercado. Na prática, isso comprometeria a rentabilidade das concessionárias, já que os custos reais das obras seriam superiores aos previstos no contrato.
Outro ponto crítico é o modelo de remuneração. Por se tratar de PPP, as empresas receberiam uma contraprestação periódica — parte fixa e parte variável. No entanto, a percepção do mercado é de que os valores não seriam suficientes para cobrir os custos, tornando o projeto economicamente inviável.
Além disso, o edital prevê que o parceiro privado não receba qualquer pagamento no primeiro ano e só alcance remuneração integral a partir do nono ano de concessão — fator considerado desestimulante para investidores.
Empresas também criticam regras que podem penalizar concessionárias por fatores fora de seu controle, como a baixa adesão da população à rede de esgoto — responsabilidade que continuaria com a Saneago.
O projeto ainda enfrenta disputas judiciais. A empresa Aegea entrou com ações questionando cláusulas do edital, como a chamada “cláusula de barreira”, que impede uma mesma empresa de vencer todos os blocos. Embora tenha obtido decisão favorável em primeira instância, o leilão foi liberado após decisão do presidente do Tribunal de Justiça de Goiás, Leandro Crispim.
Uma segunda ação também foi apresentada, alegando irregularidades que poderiam comprometer a legalidade do certame, mas o pedido foi negado pela Justiça.
O BNDES informou que, diante da baixa procura, pretende realizar uma escuta de mercado para entender os motivos da falta de interesse e avaliar possíveis ajustes no projeto. Segundo o banco, leilões com baixa participação não são incomuns e podem servir para aprimorar futuras concessões.
Enquanto isso, cresce a expectativa sobre uma possível suspensão ou reformulação do leilão, em um cenário que expõe fragilidades em um dos maiores projetos de infraestrutura do estado.
Redação: Integração News
integracaonews.com.br Portal de Notícias