Um procedimento pioneiro realizado em Goiânia marcou um novo capítulo na medicina regenerativa em Goiás. Um paciente goiano recebeu, em janeiro deste ano, a polilaminina — substância experimental que vem sendo estudada como possível auxílio na recuperação de lesões medulares agudas. Foi a primeira cirurgia do tipo realizada no estado.
O procedimento foi acompanhado pelo médico Alan Anderson Fernandes Oliveira, diretor técnico assistencial do Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer), onde o paciente segue em acompanhamento clínico.
Ainda em fase de pesquisa, a polilaminina tem gerado resultados considerados promissores por especialistas. O tema ganhou repercussão nas redes sociais após a divulgação de relatos e vídeos que mostram a recuperação funcional de pacientes submetidos ao tratamento.
Atualmente, um dos principais estudos sobre a substância é conduzido pela cientista Tatiana Sampaio, com equipe vinculada à Universidade Federal do Rio de Janeiro.
O paciente goiano não integra o estudo clínico oficial, mas conseguiu acesso à terapia experimental por autorização judicial concedida em casos graves. Trata-se de um homem entre 40 e 50 anos, cuja identidade permanece em sigilo por decisão da família e da Justiça. O governo estadual ofereceu apoio logístico para a realização do procedimento.
Segundo Alan Anderson, o perfil do paciente segue o padrão mais comum entre lesionados medulares, predominantemente homens jovens vítimas de traumas — especialmente acidentes automobilísticos.
A polilaminina é uma versão recriada em laboratório da laminina, proteína naturalmente presente no organismo humano e essencial para o desenvolvimento e organização dos tecidos.
A inovação científica consiste em transformar a substância em uma estrutura microscópica capaz de funcionar como uma “ponte” entre áreas rompidas da medula espinhal. Essa estrutura cria um suporte físico que pode permitir o crescimento dos axônios — prolongamentos dos neurônios responsáveis pela transmissão de sinais entre cérebro e corpo.
Em termos práticos, a substância tenta restabelecer a comunicação interrompida pelo trauma.
Segundo o médico, o resultado pode variar entre limitado e expressivo, dependendo principalmente da reconexão correta dos neurônios e da qualidade do processo de reabilitação pós-operatória.
A cirurgia ocorreu sem intercorrências e o paciente apresentou evolução considerada positiva. No Crer, o acompanhamento inclui avaliação da qualidade de vida, funções motoras, controle da bexiga, sexualidade e reabilitação multidisciplinar.
O centro é referência no tratamento de lesões medulares, com mais de 12 anos de experiência na área. Segundo o especialista, terapias convencionais podem gerar recuperação entre 10% e 15%. Já estudos iniciais com polilaminina indicam potencial de recuperação entre 70% e 75% — estimativas ainda preliminares.
Apesar do entusiasmo da comunidade médica, especialistas reforçam que a substância ainda não foi aprovada para uso clínico amplo.
O desenvolvimento segue etapas rigorosas de pesquisa:
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Fase 1: avaliação da segurança
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Fase 2: comprovação de eficácia
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Fase 3: validação clínica ampliada
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou, em janeiro de 2026, a continuidade dos testes em humanos, focados principalmente em lesões medulares agudas na região torácica.
Até agora, os resultados envolvem um número reduzido de pacientes, o que impede conclusões definitivas sobre eficácia. Especialistas lembram que parte dos lesionados medulares pode recuperar algum movimento mesmo sem intervenção experimental, dependendo do tipo de lesão e da resposta individual.
Também não há comprovação científica de benefício em lesões crônicas.
Embora o paciente goiano apresente evolução positiva e compartilhe nas redes sociais sua rotina de reabilitação física, pesquisadores alertam que ainda não é possível estabelecer relação direta entre a melhora e o uso da polilaminina.
Se os resultados forem confirmados nas próximas etapas, a expectativa é que a terapia leve alguns anos para se tornar amplamente disponível.
Por enquanto, o avanço representa um sinal de esperança — acompanhado da cautela que toda inovação científica exige.
Redação: Integração News
Jornalista: João Pedro Lira
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